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Por que os EUA precisam de uma reforma no sistema de saúde

* Por Barack Obama

Nosso país está atualmente envolvido em um grande debate a respeito do futuro do sistema de saúde dos Estados Unidos. E, ao longo das últimas semanas, boa parte da atenção da mídia esteve concentrada nas vozes que ocupam os cargos mais altos. O que ainda não escutamos foi a voz de milhões de americanos que se debatem diariamente contra um sistema que, na maioria das vezes, beneficia mais as seguradoras do que os próprios cidadãos.

São pessoas como Lori Hitchcock, que conheci em New Hampshire, na semana passada. Lori trabalha atualmente como autônoma e tenta abrir seu próprio negócio, mas por ser portadora de hepatite C, não encontra uma seguradora que aceite cobrir seu caso.

O depoimento de outra mulher afirmava que uma seguradora se recusou a cobrir males relacionados a seus órgãos internos em razão de um acidente que ela sofreu quando tinha 5 anos de idade.

Um homem perdeu a cobertura do seu plano de saúde no meio do tratamento quimioterápico porque a seguradora descobriu que ele tinha cálculos biliares, mal que ele próprio desconhecia quando assinou a apólice. Por causa do atraso no seu tratamento, o ele morreu.

Ouço mais e mais histórias como essas a cada dia, e é por isso que estamos agindo com tamanha urgência para aprovar a reforma nos seguros de saúde ainda este ano. Não preciso explicar aos quase 46 milhões de americanos desprovidos de seguro o quanto isto é importante. Mas a questão é de igual importância para aqueles que já dispõem de seguro de saúde.

Há quatro maneiras por meio das quais a reforma que estamos propondo oferecerá mais estabilidade e segurança a todos os americanos. Primeiro, para aqueles que não têm seguro de saúde, haverá a opção de uma cobertura acessível e de alta qualidade para suas famílias – cobertura que as acompanhará em caso de mudança de endereço, mudança de profissão ou mesmo situação de desemprego.

Segundo, a reforma vai, finalmente, controlar o custo cada vez mais alto dos planos de saúde, o que representará uma economia real para as famílias, empresas e para o governo. Cortaremos centenas de bilhões de dólares que são desperdiçados pela ineficiência de programas federais de saúde, como o Medicare e o Medicaid, além dos subsídios injustificados pagos a seguradoras que nada fazem para melhorar a qualidade do atendimento e preocupam-se somente em aumentar os próprios lucros.

Terceiro, ao tornar o Medicare mais eficiente, seremos capazes de garantir que uma maior parcela do dinheiro arrecadado com impostos seja destinado diretamente ao atendimento dos idosos, em vez de engordar os cofres das seguradoras.

Além de proporcionar aos idosos de hoje os benefícios que lhes foram prometidos, isto também vai garantir, no longo prazo, a boa saúde e funcionamento do programa Medicare para os idosos de amanhã. Nossas reformas também reduzirão o preço que os idosos pagam pelos remédios que lhes são receitados.

DISCRIMINAÇÃO

Por último, a reforma vai proporcionar a cada americano algumas proteções básicas que obrigarão as seguradoras a responder pelo serviço prestado. Uma pesquisa nacional, realizada em 2007, mostra que as seguradoras discriminaram mais de 12 milhões de americanos nos três anos anteriores em razão da verificação de doenças e condições pré-existentes.

Essas práticas chegarão ao fim. Nossa reforma vai proibir as seguradoras de negar cobertura a qualquer cidadão por causa de seu histórico médico. Elas não poderão encerrar a cobertura caso o segurado adoeça. Não poderão buscar pretextos para diluir a cobertura no momento de maior necessidade do cliente. Não poderão mais estabelecer limites arbitrários sobre a cobertura a que o cliente tem direito num determinado ano, ou mesmo ao longo da vida.

Vamos impor um limite à quantia cobrada do cliente por despesas adicionais. Não é admissível que um americano fique sem dinheiro por estar doente. O mais importante: exigiremos das seguradoras que cubram os check-ups de rotina, o atendimento preventivo e testes como mamografias e colonoscopias.

Não há motivo que justifique a não detecção antecipada de problemas, como o câncer de mama e o câncer de próstata. Isto faz sentido, salva vidas e economiza dinheiro.

É isto que a reforma pretende fazer. Para aqueles que não têm seguro de saúde, haverá opções acessíveis e de qualidade assim que a reforma for aprovada. Para aqueles que já têm seguro de saúde, garantiremos que nenhuma seguradora e nenhum burocrata do governo sejam obstáculos entre o cliente e o atendimento de que ele necessita.

Aqueles que gostam de seus médicos podem continuar sendo atendidos por eles. Aqueles que gostam do seu plano de saúde poderão mantê-lo. Ninguém precisará esperar nas filas. Não se trata de encarregar o governo de administrar os planos de saúde. Acredito que as únicas pessoas encarregadas de decisões relacionadas à saúde são o cidadão e o seu médico – e não os burocratas do governo e nem as seguradoras.

O prolongado e vigoroso debate a respeito do atendimento médico que tem sido travado nos últimos meses é algo positivo. Trata-se do tipo de coisa que caracteriza os EUA. Mas precisamos nos certificar de conversarmos uns com os outros, dando ouvidos aos demais pontos de vista.

É certo que haverá discordâncias, mas é melhor discordar sobre temas reais, e não sobre mal-entendidos mirabolantes que em nada se assemelham a algo que alguém tenha de fato proposto. Trata-se de um tema complicado e crítico, que merece um debate sério.

Apesar daquilo que vimos na televisão, acredito que um debate sério esteja ocorrendo nas mesas de jantar de todo o país. Nos últimos anos, recebi incontáveis cartas e perguntas sobre o sistema de saúde. Algumas pessoas são favoráveis à reforma e outras demonstram preocupação.

Mas quase todos compreendem que alguma coisa precisa ser feita. Quase todos sabem que precisamos responsabilizar as seguradoras pelo serviço que prestam e dar aos americanos uma maior sensação de estabilidade e segurança em relação ao atendimento médico que recebem.

Acredito que, ao final dos debates, seremos capazes de chegar ao consenso necessário para atingir esta meta. Já estamos mais próximos do que nunca de conseguir uma reforma do seguro de saúde.

Conseguimos conquistar o apoio da Associação Americana de Enfermeiros e da Associação Americana de Médicos, porque os enfermeiros e os médicos do nosso país sabem, em primeira mão, o quanto a reforma é necessária.

Conseguimos no Congresso apoio para aproximadamente 80% do que estamos tentando fazer. E conseguimos que os fabricantes de remédios concordassem em reduzir o preço dos remédios vendidos sob prescrição médica, tornando-os mais acessíveis para os idosos. A Associação Americana dos Aposentados apoia essa medida, e concorda que a reforma precisa acontecer ainda este ano.

RISCO

Nas próximas semanas, os cínicos e os opositores continuarão a explorar o medo e as preocupações para obter ganhos políticos. Mas, apesar de todas as táticas do medo empregadas no momento, a única coisa verdadeiramente assustadora e arriscada é a perspectiva de não se fazer nada.

Se a situação atual for mantida, continuaremos a ver 14 mil americanos perderem seu plano de saúde todos os dias. As mensalidades continuarão a aumentar. Nosso déficit continuará crescendo. E as seguradoras seguirão lucrando com a discriminação contra os doentes.

Não é esse o futuro que desejo para minhas crianças e nem para as de todos os cidadãos. Não é esse o futuro que desejo para os EUA. Afinal, não se trata de uma questão política. Trata-se do bem-estar e da qualidade de vida das pessoas. Trata-se dos negócios da população.

Trata-se do futuro de nosso país, de sermos capazes de olhar para trás daqui a anos e dizer que este foi o momento no qual fizemos as mudanças que necessitávamos, que demos aos nossos filhos uma vida melhor. Acredito que podemos e iremos fazê-lo.

* Barack Obama é presidente dos Estados Unidos

 

Data: 17/8/2009

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo

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